DIÁRYOS DO EGO

Março 2015: Desde a adolescência que desenho nos meus cadernos mas só quatro décadas depois, com a iminência da morte de um grande amigo, é que passei a pintar em pastel de óleo, nos meus cadernos e em pequenas telas. Comecei por colorir os desenhos das múltiplas personas do Senhor Ego, que fiz para a longa-metragem A Janela (Maryalva Mix). Pintar teve um efeito libertador, terapêutico, criou uma sensação de aconchego, no meio de toda aquela dor e desassossego. Era simultaneamente um exorcismo e uma forma de meditação, sem a consciência de que a estava a praticar.

18 Junho 2018: Surpreenderam-me com um convite da Câmara de Almada para fazer um poster comemorativo do 25 de Abril. Fiz dezenas de tentativas, até chegar ao um resultado que me agradasse, mas senti que estava a lutar contra a espontaneidade. Até então só tinha desenhado o que me surgia com a inspiração do momento. Mesmo quando faço filmes, em que é preciso prepararmo-nos antecipadamente, sempre gostei de explorar a espontaneidade do momento de criação, e até no cinema, que è baseado na captação  de imagens por uma máquina, tenho uma dificuldade cilkópyka em transmitir a visão vigente da realidade consensual. Ou talvez seja porque, na escola primária, ensinaram-me que copiar é muito feio.

Tenho pudor em contar uma história e em mostrar imagens que não rompam com a visão normalizada dos acontecimentos ficcionais ou até mesmo documentais. Na pintura, sou também incapaz de ilustrar a realidade (apesar de alguns trabalhos meus se aproximarem do grafismo da banda desenhada).

Depois, pedem-me para fazer a capa do livro de Manuel Rodrigues, Anastática. De início repito o erro de criar dezenas de alternativas de capas, mas felizmente, desta vez optei por seleccionar uma pequena pintura dos meus cadernos, feita previamente, e sem qualquer relação directa com o livro.

2 Janeiro 2020: Mudo-me para Guimarães. Preparação da longa-metragem sobre os heterónimos pessoanos Não Sou Nada/The Nothingness Club. Compro pela primeira vez, um cavalete, telas e óleo. Começo a pintar em grande formato. Começo com carantonhas grotescas, com apenas uma camada de tinta. Depois tento criar outras personagens, como os Homens-Robot e os Animais Kryptocelulóides (personagens invisíveis de Cinesapiens, seres que sugam a realidade e a expelem sob a forma de filme).

Ao mesmo tempo, reescrevo o guião de Não Sou Nada e filmo alguns ensaios, já nos cenários do Nothingness Club. Entretanto o vírus fascista começa a alastrar-se e decidimos cancelar as rodagens previstas para 6 de Março, ainda antes de ser declarado o confinamento.

At the same time, I rewrite the script of “The Nothingness Club”, and shoot some of the rehearsals in the film sets. Meanwhile, the fascist virus is beginning to spread, and we decide to cancel the filming scheduled for March 6, even before the confinement is declared.

18 de Março 2020: Pandemia declarada. Primeiro confinamento. O tempo dedicado à pintura aumenta. Fecham as lojas e começo a pintar por cima da maioria dos quadros “terminados”, até descobrir linguagens com as quais me identificasse. Misturo as visões, até aí bidimensionais, com as texturas criadas pelos quadros soterrados. Surgem novos padrões.

23 Maio 2020: Vejo auras, seres espectrais, que surgem durante o processo criativo, à medida que vou pintando. Estas visões obsessivas fazem-me lembrar o filme Encontros Imediatos do Terceiro Grau, quando uma série de pessoas começam a representar, de diferentes formas (pintura, escultura), a mesma montanha, onde estavam os extraterrestres. Pinto essas visões, como se fosse possuído por uma influência externa. Não que eu acredite em espíritos (nem desacredito, por falta de provas), mas era como se estivesse numa sessão espírita ou telepática, ou num daqueles processos pessoanos de escrita mediúnica e de comunicação com o Além, com o Ynkonsciente.

Alguns desses espectros evocam, involuntariamente, as matrizes digitais de Matrix, “a verdadeira realidade”, o mundo de 0s e 1s onde as máquinas vivem.

6 Junho 2020: Mudo-me para o Atelier Bastuz, na continuação da rua onde estava a viver. Com mais espaço, aumenta a distância para avaliar os quadros. Descubro uma forma de avaliar os meus quadros: o método pystoleiro do espanto – às vezes volto-me num ápice (ou volto-me e vejo num ápice), e olho para o quadro que acabei de pintar e surpreendo-me sempre com o que vejo naquele flash/glimpse/gestalt daquela pintura. Às vezes basta um olhar de relance para que reconheça que o quadro não presta para nada (do meu ponto de vista, porque já me aconteceu querer pintar por cima de quadros que são os favoritos de amigos que passam no atelier). Olho para o quadro como se fosse a primeira vez que o vejo, como realmente é, e às vezes obtenho uma sensação de harmonia ou de força, que me agrada. O processo de espanto é o mesmo; apenas pode ser um espanto positivo ou negativo.

29 Julho 2020: Interrompo a pintura para rodar The Nothingness Club. Por sugestão do director de arte, usamos os meus quadros nas paredes de um consultório de um hospício. Supostamente serão pinturas dos alienados internados. Não me sinto muito à vontade em expor os meus quadros, mas   parece-me uma boa ideia, dado que algumas dessas visões, parecem ter sido criadas na Akademya dos Alyenados  (mais um termo de Pessoa)

23 Setembro 2020: Retomo a pintura em casa lisboeta. Começo a usar uma técnica mista de pastel e óleo, criando outro tipo de texturas. Regresso às  personas do Senhor Ego de A Janela (Maryalva Mix) e ao Homem-Kâmara (influência vertoviana) – da espécie Kryptocelulóide, criado para as minhas páginas do semanário O Independente, publicadas no início dos anos 90.

19 Novembro 2020: Inspiro-me em pequenas pinturas dos meus cadernos para criar quadros com 3 figuras de perfil, que, à posteriori, evocam as misteriosas estátuas da Ilha de Páscoa, ou os monstros de pedra criados por Jack Kirby nos anos 50 para a Marvel Comics. Começo a fazer colagens com as revistas de super-heróis da minha infância.

24 Dezembro de 2020: Leio um mail, na véspera de Natal, que anuncia que, a minha candidatura a um espaço nos Ateliers dos Coruchéus, em Lisboa, tinha sido finalmente aceite. De súbito, vejo um futuro.

23  Março de 2021:  Instalo-me finalmente nos Ateliers dos Coruchéus. Diversifico as linguagens, assumindo diferentes personas, heterónimos piktórykos. Agora já posso pendurar os meus quadros e ver como se relacionam com uma parede branca, à distância. Começo a pintar espirais e a usar pasteis iridescentes, azuis, dourados, prateados….

20 Maio 2021: (quase) tudo o que acontece por acidente enquanto estou a pintar, incorporo no todo do quadro (ainda mais do que quando estou a filmar). Não pensando, aceito (quase) tudo o que acontece de imprevisto, aparentes catástrofes que transformam por completo a ideia inicial. Mas a ideia inicial é isso mesmo: é apenas o início, início de algo, e tudo o que acontece durante a viagem faz parte da viagem. Mas ás vezes um pequeno erro obriga-me a refazer toda a pintura.

25 Maio 2021: Vejo Auras Fosforecentes. Aprofundo a linguagem das técnicas mistas, de forma a  reflectir de diferentes formas a luz. Os quadros têm uma leitura totalmente diferente consoante o ângulo de incidência e a intensidade da luz. Também vejo bruxas, mas são quase todas boas-bruxas.

11 Junho 2021: Começo a escrever nos quadros. São exorcismos ilegíveis (sou um serial-painter, pintando pelo menos 3 variações do mesmo tema), onde exorcizei obsessões, paixões trans-temporais e letras de músicas.

13 Junho 2021: Telefonema da Julita Santos a propôr-me uma exposição, a integrar os eventos paralelos do festival de cinema fantástico e de terror Motel X. Começo por recusar, por achar prematura (ou indesejada?) uma exibição pública das minhas telas. Até esse dia pintei, sem pensar no destino dos quadros, mas a Julita explicou-me que pretendia criar um ambiente de luz e som que dramatizasse os quadros. Esse argumento agradou-me: assim os meus quadros poderiam continuar a cumprir a função de cenário de um filme, imaginário, neste caso. 

2 Setembro 2021: Termino os últimos quadros que sinalizam cada um dos andares desta encenação piktóyka. VIZÕES não é uma exposição, no sentido em que não houve uma selecção das minhas obras. Estão lá todos os quadros que fiz até hoje (à excepção de alguns que ofereci), pelo que é,  no fundo, uma Retrospektiva (quase) Yntegral. Auras Magnéticas, projecções astrais, bruxas, Homens-Robot, possessões alienígenas, confrontos entre egos, visões tácteis, exorcismos, encantamentos, contratos, obsessões, padrões de imaginação, paixões, alucinações, memórias mitológicas, etc., etc., e finalmente expostos aos olhares alheios. Destino Ynkógnito.

VIZÕES DO EGO

Encenação Piktóryka de Edgar Pêra

VIZÕES DO EGO é a primeira incursão pública do cineasta Edgar Pêra no mundo da pintura. A revelação dos seus quadros (assinados EGO), através de um labirinto sensorial, dramatizado através de uma iluminação e sonorização que evoca o cinema expressionista e fantástico.

Kuradorya de Julita Santos

Banda Sonora de Artur Cyaneto

AGRADECIMENTOS

António Gama, Margarida Assis, Manuel Rodrigues, Luísa Ramos, Ana Soares, Cláudio Vasques, Bando À Parte, José Silva, Ricardo Preto, Pedro Bastos, Henrique Pêra, Inês Grosso, Miguel Nabinho, Nuno Soares, Tiago Baptista, José Caiado, Luísa Perestrello.

DIARIES OF EGO

MARCH 2015: Since I was a teenager I have been drawing in my notebooks, but it was only four decades later, with the imminence of the death of a dear friend, that I started painting with oil sticks in my notebooks and on small canvas. I started by colouring the drawings of the multiple personas of Mr. Ego, which I made for the feature film The Window (Don Juan Mix). Painting had a liberating, therapeutic effect, created a feeling of warmth in the midst of all the pain and unrest. It was both an exorcism and a form of meditation, although I was not aware of it at the time when I started painting.

June 18, 2018: I am taken by surprise by an invitation from the Municipality of Almada to make a poster commemorating the 25th of April [1974]. I make dozens of attempts, until I get a result that I like, but I feel as if fighting against spontaneity. Until then I had only drawn what came to me as the inspiration of the moment. Even when I make films, for which I have to prepare in advance, I always like to explore the spontaneity of the moment of creation. With cinema, which is based on the capture of images by a machine, I feel a cyklopean difficulty in conveying the prevailing view of consensual reality. Or maybe this happens because in elementary school I was taught that copying was a very bad thing to do.

I feel uncomfortable in telling stories and showing images that do not break with the normalized view of the Real. In painting, I am also unable to illustrate reality (although some of my works are close to the comics’ aesthetics).

Later, I am asked to make the cover for Manuel Rodrigues’ book, Anastática, dedicated to Alberto Pimenta, and edited by Abysmo. At first, I repeat the mistake of creating dozens of alternative covers, but, fortunately, I decide to select an already existing small painting from my notebooks, with no direct relation to the book.

January 2, 2020: I move to Guimarães for the preparation of a feature film about Fernando Pessoa’s heteronyms, called “Não Sou Nada/The Nothingness Club”. For the first time in my life, I buy an easel, canvas, and oil paint. I start painting large formats with a single layer of paint, figuring grotesque faces. Then I try to create other characters, like Robot-Men and Kryptocelluloid Animals (invisible characters of my film Cinesapiens, the latter being entities that suck in the reality and then expel it in the form of film).

At the same time, I rewrite the script of The Nothingness Club and shoot some of the rehearsals in the film set. Meanwhile, the fascist virus is beginning to spread, and we decide to cancel the filming scheduled for March 6, even before the confinement is declared.

March 18, 2020: Pandemic declared. First confinement. More time to devote to painting. The shops close down, and I start painting over most of the “finished” works, until I discover languages with which I can identify. I mix the visions — bidimensional up to that point —, with the textures created by the “buried” paintings. New patterns appear.

May 23, 2020: I see auras, spectral beings, that arise during the creative process of painting. These obsessive visions remind me of the film “Close Encounters of the Third Kind”, when a number of people begin to represent, in different ways (painting, sculpture), the same mountain, where the extra-terrestrials were. I paint these visions, as if I were possessed by an external influence. Not that I believe in spirits (or discredit, for lack of evidence), but it is as if I was in a séance, or communicating telepathically, or in one of those mediunic writing processes, through which Pessoa communicated with the Beyond, with the Unkonscious.

Some of these spectres involuntarily evoke the digital matrices of the film Matrix, “the true reality”, the world of 0s and 1s where the machines live.

June 6, 2020: I move to the Atelier Bastuz, just down the road. With more space, the distance permits a better evaluation of the paintings. I find a way to do so: The Duel Method of Amazement – sometimes I make a sharp turnaround (or I turn around and see in a split second), and I look at the painting I just painted and always surprise myself with what I see in that glimpse. Sometimes, it takes just a glance to recognize that the picture is worthless (from my point of view, at least, as I have sometimes wanted to paint over works that were the favorite of friends who passed by the studio). I look at the picture as if it were the first time I am seeing it, as it really is, and sometimes I get a sense of harmony or strength that I like. The process of astonishment is the same; it can only be a positive or negative astonishment.

July 29, 2020: I stop painting to shoot The Nothingness Club. At the suggestion of the production designer, we use my paintings on the set; on the walls of what is the office of a mental institution. They’re supposed to be paintings by the insane inmates. I don’t feel very comfortable exposing my paintings, but it seems to me a good idea, since some of these visions seem to have been created in the Akademy of the Alienated (another one of Pessoa’s creations).

September 23, 2020: I go back to painting at my home in Lisbon. I begin to use mixed-media techniques of oil sticks and oil paint, creating another type of textures. I return to the Ego personas from The Window (Don Juan Mix) and to the (Vertovian) Man-Kamera of the Kryptocelluloid species, created, in the early 90’s, for my pages in the weekly newspaper O Independente.

November 19, 2020: I find inspiration in some small paintings in my notebooks to create pictures with 3 figures in profile, which, seen a posteriori, evoke the mysterious statues of Easter Island, or the stone monsters created by Jack Kirby in the 1950s for Marvel Comics. I start making collages with the superhero magazines from my childhood.

December 24, 2020:  Christmas Eve. I receive an e-mail announcing that my application for a space in the Ateliers dos Coruchéus, in Lisbon, had finally been accepted. Suddenly, I see a future.

March 23, 2021:  Finally settled in the Ateliers dos Coruchéus. I diversify languages, assuming different personas, piktoryk heteronyms. Now I can hang up my paintings and see, from a distance, how they relate to a white wall. I start painting spirals and using iridescent oil sticks, blue, golden, silver…

May 20, 2021: I incorporate into my paintings (almost) everything that happens by accident (even more so than when I’m shooting). Not thinking, I accept (almost) everything that happens unexpectedly, apparent catastrophes that completely transform the initial idea. But the initial idea is just that: it’s just the beginning, the beginning of something, and everything that happens during the journey is part of the journey. But sometimes a small mistake forces me to redo the whole painting.

May 25, 2021: I see Phosphorescent Auras. I delve in the language of mixed techniques, in order to reflect the light in different ways. The pictures have a totally different reading depending on the angle of incidence and the intensity of the light. I also see Phosphorescent Witches, but they are all mostly good witches.

June 11, 2021: I start writing over the painted surfaces. They are illegible exorcisms (I am a serial-painter, I paint at least 3 variations of the same theme), where I exorcize obsessions, trans-temporal passions, and song lyrics.

June 13, 2021: Call from Julita Santos proposing an exhibition to integrate the parallel events of MOTELX – Lisbon International Horror Film Festival. I first refuse because I find a public display of my paintings premature. Until that day, I painted without thinking about the destiny of the paintings. But Julita explains that she wants to create an environment of light and sound that dramatizes the paintings. That argument pleases me: my paintings can continue to perform the role of a film set, an imaginary one in this case. 

September 3, 2021: Visions of Ego is not an exhibition, in the sense that there isn’t a selection of my works. All the paintings I’ve done to date (with the exception of some that I offered) are on display, so we can call it an (almost) Komplete Retrospektive. Magnetic auras, astral projections, witches, Robot-Men, alien possessions, confrontations between egos, tactile visions, exorcisms, incantations, contracts, obsessions, patterns of imagination, passions, hallucinations, mythological memories, etc., etc., finally exposed to the eyes of others. Fatum Ynkognito!

VIZIONS OF EGO

A Piktoryal Play by Edgar Pêra

VIZIONS OF EGO is the first public exhibition of filmmaker Edgar Pêra’s paintings (which he signs as EGO). It is a staged retrospective of his  work, experienced through a sensorial labyrinth, enhanced by sound and illumination, reminiscent of expressionistic and fantastic cinema.

Kurator Julita Santos

Soundtracck Artur Cyaneto

ACKNOWLEDGMENTS

António Gama, Margarida Assis, Manuel Rodrigues, Luísa Ramos, Ana Soares, Cláudio Vasques, Bando À Parte, José Silva, Ricardo Preto, Pedro Bastos, Henrique Pêra, Inês Grosso, Miguel Nabinho, Nuno Soares, Tiago Baptista, José Caiado, Luísa Perestrello.


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