BUCKAROO BANZAI

Antes de iniciar os meus Kino-Diários 3D queria deixar aqui um artigo publicado na revista Argumento, sobre o filme que mais vezes vi….

“Why is there a watermelon there?”

“I’ll tell you later.”

Assisti nos anos 70 e 80 a milhares de filmes: desde os clássicos às novas vagas digeri de quase tudo. Tinha de compreender a história do cinema, para depois reflectir sobre o meu lugar. Quando, em 1981, entrei para a Escola de Cinema do Conservatório, no Bairro Alto – onde aprendizagem e quotidiano nocturno se confundiam – apenas ambicionava revisitar os cine-mundos dos meus cineastas favoritos. Três anos depois fechei um capítulo da minha cinefilia, abraçando dentro do espectador o criador. A partir daí ver filmes passou a ter uma função acrescida, a de combustível que alimentasse a cine-máquina do meu imaginário.

E, apesar de continuar a ser um cinéfilo, sempre disposto a uma cine-maratona – entre Griffith e Eisenstein, Dreyer e Bresson, Vertov e Kuleshov, Lang e Welles, Tourneur e Ulmer, Murnau e Polansky, Hitchcock e Hawks, Godard e Resnais – procurava agora filmes que escapassem ao cânone da cinefilia vigente. A adoração dos monstros sagrados ficava para trás. A resposta estava no presente em filmes futuristas que se debruçavam sobre o imaginário colectivo. Futuros filmes de culto. Filmes série B, ligeiramente à margem da indústria de Hollywood. Interessava-me a série B como sistema de produção: com a falta de meios apela-se à imaginação. Só enquanto criador me orientei no sentido da utopia da originalidade (oriunda das vanguardas modernistas), mas enquanto espectador abraçava o revisionismo e a reciclagem.

O visionamento de alguns filmes da década de oitenta foi fundamental para a minha formação pós-escola: They Live, Videodrome, Brazil, Streets of Fire, Re-Animator, From Beyond, Repo Man, Prince of Darkness, Blue Velvet, Eraserhead e As Aventuras de Buckaroo Banzai na Oitava Dimensão… Para quem desejava entrar em ruptura com a tradição austera do cinema de autor esses filmes eram bálsamos de boa disposição e de predisposição à acção – um cinema em sintonia com a minha época. Essa sim era a new wave que eu tanto aguardara. Acabava ali o reinado do cinema “adulto”, “sério”, “artístico” embrenhado em revelar o “quotidiano” ou a “verdade”. Para criar algo de novo eu tinha de olhar fora daquela caixa, criar uma visão alterada (ou antes, não “sóbria”) da realidade.

 

John Lightow em Buckaroo Banzai
John Lightow em Buckaroo Banzai

Escrevi no semanário O Independente e na revista K sobre alguns destes filmes mas nunca sobre As Aventuras de Buckaroo Banzai na Oitava Dimensão. Esta longa-metragem norte-americana de 1984 não é o melhor filme do mundo (mas qual é? para mim de certeza que não é Vertigo) nem consta das listas de melhores filmes de sempre, no entanto é o filme que mais vezes vi. Nunca o visionei numa sala de cinema mas vi-o mais de 4 dezenas de vezes numa sala de tver. Porque vi Buckaroo tantas vezes? Qual seria o motivo? Antes de mais, Buckaroo estimula no espectador o estatuto de fã (de cinema de culto). Os fãs convencionais de ficção científica tinham Star Wars e Star Trek, nós tínhamos Buckaroo.

Vi Buckaroo pela primeira vez em 1985, na companhia de correligionários e parceiros de aventuras, amigos das áreas do cinema, da escrita e da música pop/rock. O ambiente era quase sempre de festa. Estes visionamentos selvagens aproximavam-se das sessões dos primórdios do cinema, em que os espectadores ainda não se encontravam domesticados. Procurávamos alternativas de modos de viver e de criar no cinema de tendência trans-realista e Buckaroo foi o catalisador de dezenas de noites de galhofa e transe. Conhecíamos os diálogos e todos os pequenos detalhes de nonsense que a narrativa comportava. A arte do filme estava nos nossos olhos. Totalmente descomplexado, Buckaroo era sincrónico com os nossos propósitos: fazer ruir o sistema de sobriedade vigente.

Escrito por Earl Mac Rauch e realizado por W.D. Richter, As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é o resultado da harmonia total de pormenores, do guião ao casting, da banda sonora minimal pop aos adereços ecológicos alienígenas low-fi, tudo se combina para produzir uma pequena pérola de cine-paródia, que assenta nessa constante revelação: “isto é apenas um filme”.

Mas afinal quem é Buckaroo Banzai? Buckaroo Banzai é um (super)crioulo nipo-americano renascentista: neuro-cirugião, astrofísico cantor e guitarrista rock, piloto de ensaio, protagonista de um comic (da Marvel), e líder dos Hong Kong Cavaliers, cuja sede é um ultra-sofisticado autocarro (inspirado numa capa de um disco de Elvis Costello) que os leva em tournée. Richter procurava no actor que interpretasse Buckaroo alguém que pudesse parecer heróico mesmo cheio de graxa na cara e que ao mesmo tempo projectasse a inteligência que associamos a um neurocirurgião ou inventor.” Escolheu Peter Weller – o Buckaroo perfeito, com os seus olhos azuis cristalinos e penetrantes, actor-guitarrista-cantor multifacetado como o herói que interpreta. O naipe de personagens rivaliza com o de filmes como Casablanca: todos os actores são espectacularmente idiossincráticos, com um destaque especial para o Dr. Emilio Lizardo, interpretado por John Lightow. É graças a esta personagem monty-pytonesca – um cientista italiano possuído por um lectróide do planeta dez da Oitava Dimensão – que o filme entra literalmente noutra dimensão, de delírio puro. É também graças a Lizardo que a palavra flashback se materializa pela primeira vez numa película (ver foto).

Esta paródia trans-realista, que começa como se fosse o comic-book número 123 de uma série, não se preocupando em explicar as múltiplas ramificações narrativas implícitas nos diálogos entre personagens com nomes como Perfect Tommy e New Jersey (para além de que John é o primeiro nome de todos os invasores alienígenas – e não são poucos). O filme abre com Buckaroo Banzai a operar o cérebro de um esquimó para pouco depois pilotar um carro supersónico e atravessar uma montanha, entrando numa zona negativa infra-atómica, habitada por criaturas lovecraftianas em rota de colisão com o seu veículo. A pretexto dos relatos radiofónicos de Orson Welles de uma invasão extraterrestre, que geraram o pânico nos Estados Unidos, o argumentista encontrou uma solução inter-textual e inter-media (da rádio ao cinema, da realidade à ficção) e cozinhou uma premissa genial: e se a invasão de 1938 tivesse sido real e os invasores Lectróides tivessem raptado Welles, obrigando-o a radiodifundir que a invasão alienígena era apenas de uma encenação (e desde aí ocuparam o nosso planeta, camuflados)? E tudo isso explicado ao piano por Jeff Goldblum vestido de cowboy-palhaço?

Os alienígenas-bons desta fita imitam rudimentarmente a cultura terráquea: são pseudo-rastas que comunicam através de uma gramática invertida (sujeito depois do verbo) e de uma linguagem gestual estilo alien-hip-hop. O filme não pára nos créditos finais (que Wes Anderson citou em The Life Aquatic with Steve Zissou): são um cine-épico de simplicidade, entre a passagem de modelos e o desfile carnavalesco de uma banda pop. E ainda hoje há quem aguarde ansiosamente pela sequela anunciada no fim do filme (quem me dera ser eu a fazê-la, claro).

Quando Buckaroo Banzai saiu em sala, o sucesso junto do público e da crítica foi escasso. Apenas conheço um artigo da Pauline Kael, que olhou para o filme com simpatia. Para esta crítica muito singular a parelha de autores de Buckaroo “têm um “hipsterismo” sem rumo – o amor de um espertalhão pelo ridículo”. Foi surgindo gradualmente uma pequena legião de adoradores do filme – que circulava em VHS nalguns vídeo-clubes. Mac Rauch e Richter participaram diversas vezes na farsa, dando um ar de científico por trás daquela ficção descabelada: criaram por exemplo na net o site do Instituto Banzai, com textos sérios escritos por cientistas sobre a multidimensionalidade da matéria. E quando o dvd foi editado o filme expandiu-se através de múltiplos extras, formando um hiper-realidade buckaroobanzaiziana. Para além disso, Mac Rauch escreveu uma adaptação para romance, onde desenvolveu substancialmente a narrativa, tratando Buckaroo e seus acólitos como pessoas reais. O filme era uma bomba-relógio cronometrada para o futuro.

Com a edição em DVD surgiu no século XXI uma geração de neófitos de Buckaroo. Como escreveu Danny Bowes ” depois de apenas uma visualização, vê-lo de novo é como sair com velhos amigos, amigos hilariantes”. Segundo Noel Murray “é quase impossível falar sobre As Aventuras de Buckaroo Banzai sem o citar, porque a linguagem do filme faz o filme. A “citabilidade” é um elemento menosprezado nos filmes, talvez porque os críticos têm muitas vezes uma relação de amor/ódio com o diálogo em si”. Para Keith Phillips, Buckaroo “exige aos espectadores um jogo constante de recuperar o atraso (catch-up), particularmente aqueles que o vêem pela primeira vez. De facto, algumas piadas parecem ter sido feitas para não funcionarem à primeira.” O diálogo citado em epígrafe “O que faz esta melancia aqui?” “Digo-te depois.”, representa a quintessência de Buckaroo. Num primeiro visionamento ninguém fica preocupado por não saber porque aparece uma melancia no meio de uma cena de perseguição. Mas quando se revê o filme, a melancia transforma-se num enigma, numa piada com efeito retardado. Como afirma Matt Singer “a melancia, como tantos outros detalhes peculiares, continua um mistério, a sua história fica para ser contada noutro tempo e noutro filme.” E Philips acrescenta: “acho que o momento da melancia é o filme em miniatura: ou os espectadores abraçam o mistério, ou ficam frustrados por ele. É o que separa os fãs do Buckaroo de todos os outros. E é em parte o porquê de eu ter gostado mais do filme na segunda vez que vi.” Buckaroo é um filme para quem não tem medo de não saber tudo e nesse sentido influenciou-me tanto como Eraserhead. Quis mais tarde criar no espectador dos meus filmes essa mesma sensação, de que um filme é um mistério, que merece múltiplas visitas de espírito aberto.

As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão é à primeira vista o típico filme de aventuras pós-moderno, repleto de citações e clichés reciclados, da pulp fiction (Doc Savage) e de séries de ficção científica (Outer Limits) mas, a meu ver, vai muito mais longe do que os seus companheiros de viagem, quer seja Indiana Jones ou até Jack Burton de Carpenter (que conta também com um argumento de Richter). Como afirma o recém convertido Bowes, a atenção que o filme exige do espectador coloca-o numa categoria diferente de outros filmes de (regresso ao) entretenimento. Buckaroo é um filme que se insere na tradição da cine-paródia, aderindo à ideologia do série B-ismo, ridicularizando e desconstruindo convenções do género, criando novas regras e atitudes. Sem proselitismos nem austeridades. Querem melhor de um filme menor?

Termino citando uma expressão confucionista de Buckaroo: “No matter where you go … there you are”.

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