(O MEU) CINEMA & A LITERATURA

GRAFITI PESSOA

Repostas a um  questionário da revista EsCALA:

Existirá um cinema em diálogo (contra ou em tensão) com a literatura? Sempre, por definição?

Não penso que exista um diálogo entre cinema e literatura, trata-se mais de um monólogo alternado. O cinema vai buscar à literatura palavras e personagens, mas para que o filme se autonomize precisa de cortar esse cordão umbilical/diálogo e entrar num cine-transe absoluto em que apenas imagens e sons contam para o resultado final. O cinema bebe de tantas artes que mais vale pensar na literatura como (mais) uma ferramenta.

Posso dar alguns exemplos de como a utilizei. Os meus filmes têm-se relacionado com a literatura das mais diversas formas. SWK4 (1993) debruça-se sobre o período futurista de Almada Negreiros. Como se tratava de comemorar o seu centenário decidi seguir o aviso de Almada; nas homenagens é o organizador que é o homenageado. Evitei portanto qualquer reverência a este irreverente, talentoso e (às vezes) cabotino jovem (ele com 22 anos quando escreveu aqueles poemas, eu com 32 quando filmei) tratei-o como um colaborador cujos textos eu usava a meu bel prazer. Em Manual de Evasão LX94 (1994), escolhi três autores da contracultura norte americana (Terence Mckenna, Robert Anton Wilson e Rudy Rucker) e em vez de citar os seus livros, entrevistei-os, interseccionando as suas ideias com as intervenções dos actuadores. Ficou um texto sobre a natureza do Tempo, que poderia ser editado em livro. No proto-filme O Mundo Desbotado (1995) – um esboço de sinopse de uma longa-metragem nunca concretizada, baseada na novela de Isabel Barreno – filmei os reflexos ondulantes de uma leitura trans-realista e caricatural do texto. E na instalação Zombietown 23 (1998) sobrepus um discurso de Terence Mckenna sobre os mortos vivos a slogans retirados de O Livro do Desassossego, de Pessoa. Em O Homem-Teatro (2001) cruzei textos de António Pedro com excertos de peças que encenou (O Valentão do Mundo Ocidental, Morte de um Caixeiro Viajante).

Com Rio Turvo, iniciei a minha aproximação ao universo de Branquinho da Fonseca e pela primeira vez procurei seguir as pistas narrativas indicadas num texto. Aqui tratava-se de ampliar pormenores e manipular diálogos, explorando o potencial musical da obra. Pode-se dizer que todo esse trabalho culminou em O Barão (argumento em parceria com a escritora Luísa Costa Gomes), o filme onde finalmente tive à disposição os meios para criar uma obra que literalmente levanta voo, levando consigo as memórias de um texto ímpar (e também de excertos de O Involuntário – um conto-espelho de O Barão). Aqui poder-se-á dizer que houve um diálogo imaginário, não entre dois autores, mas entre dois tempos, o nosso e o de Branquinho. No prólogo documental ao projecto de filme Horror no Bairro Vermelho usei uma leitura do parágrafo inicial (dito por 3 actores) de The Call of Cthulhu da autoria de Howard Philips Lovecraft. E com Cinesapiens (2013) voltei a recorrer a Lovecraft (From Beyond) desta vez encenando os diálogos do conto num contexto de filme de ficção científica série B – uma metáfora epigramática do cinema do futuro.

E com Alberto Pimenta já foram tantas as colaborações que perdi a conta….

Alberto Pimenta
Alberto Pimenta

De cada vez que me aproximo de uma texto tento uma abordagem diferente. Jaques Tati dividia entre os filmes escritos e os outros, e para ele Playtime estava mais perto do ballet do que da literatura. No entanto também podemos recorrer a um texto para criar algo em total ruptura com os propósitos do livro em que se inspira.

Em que medida será operativo pensar um cinema narrativo e um cinema poético ou lírico?

Talvez seja mais produtivo pensar em cinema romanesco, cinema-conto, cinema reportagem, cinema-ensaio, cinema poético e assim por diante. A poesia tem uma narrativa, apenas é diferente da tratada pelo romance, quer no ritmo quer na forma. Mas não há tema tabú para nenhum desses formatos. Basta vontade e imaginação. Talvez seja mais produtivo dividir entre cinema do Real e cinema do Imaginário, mas mesmo essas fronteiras esbatem-se constantemente. Aliás, penso que o mais interessante se passa nesses interstícios, nos filmes e nos livros que são obras irredutíveis e inclassificáveis.

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