A TEORIA DO PESTANEJAR

Inicio hoje a publicação dos meus cine-diários da tese O Espectador Espantado, que tenho vindo a desenvolver desde 2007. Os comentários são bem-vindos.

(fotos 3D do filme A Caverna)

O ESPECTADOR ESPANTADO Kino-Diário 3D 23 Maio 2007

CAVERNA_47-cópiaA TEORIA DO PESTANEJAR

 “Sofria de uma doença chamada pálpebras granulosas, que o fazia pestanejar mais vezes do que o habitual, como se achasse difícil abarcar tudo o que a sua vista alcançava.” “O Assassino de Jesse de James pelo Cobarde Robert Ford”. O narrador define assim Jesse James logo no início do filme.)

Saiu em Fevereiro um livro fundamental para a compreensão do pensamento dos Moviemakers (ou “fazedores de filmes”) de Hollywood: The Great Moviemakers of Hollywood Golden Age at the American Film Institute é uma compilação, de George Stevens Jr, de dezenas de entrevistas a fazedores de filmes (directores de fotografia, produtores e sobretudo cineastas) que trabalharam em (ou para) Hollywood.

Muitos deles revelam uma opinião sobre o espectador, constroem o seu espectador, assim como o espectador constrói o filme. Se um filme é idealizado de formas diferentes, também o espectador não é uma entidade una e indivisível, é imaginado pelos realizadores e produtores de acordo com os objectivos destes profissionais.

“Salta à vista” a entrevista de John Huston, que coloca a relação do espectador com o espectador a nível mental, como físico, comparando a câmara a uma mente e um olho: “the camera follows a mental process. I think that even more than this, it also follows physical processes. I’ll give you an example. What is a cut? A little experiment – look at this man on the right, and then look to George Stevens on my left. I’m going to do the same. Now, in making that shot it can either be a pan or a cut. If I look this way, it´s a pan. If I blink, that´s a cut. You’re used to this room by now, you know what the spatial relationship is, so when you look from there to there, you don’t need to keep your eyes open. You can jump back and forth, cut out certain things. You rest your eyes and open them again. That’s why I think the camera is an eye as well as a mind. “

CAVERNA_17-3D1E lembro-me então de que já tinha lido uma citação semelhante de Huston num livro de 1995 da autoria de Walter Murch. Este montador e autor de bandas sonoras, conhecido sobretudo pelo seu trabalho com Coppola, defende que no momento em que o espectador vai pestanejar deve surgir um corte. (poderíamos afirmar que logo à partida esta tese é rejeitada por todos os filmes feitos em longos planos sequência, mas mesmo esses planos têm pontos de ruptura, quer através de movimentos de Câmara quer através da movimentaçãoo das personagens).

Eis a citação de John Huston feita por Murch: “To me, the perfect film is a though it were unwinding behind your eyes, and your eyes were projecting it themselves, so that you were seing what you wished to see. Film is like thought. It´s the closest to thought process of any art.” (pg 60)

“Look at that lamp across the room. Now look back at me. Look back at that lamp. Now look back at me again. Do you see what you did? You blinked. Those are cuts. After the first look, you know that there’s no reason to pan continuously from me to the lamp because you know what’s in between. Your mind cut the scene. First you behold the lamp. Cut. Then you behold me.”

CAVERNA_18 3D2Murch continua:” What Huston asks us to consider is a physiological mechanism – the blink – that interrupts the apparent visual continuity of our perceptions… (..) And not only is the rate of blinking significant, but so is the actual instant of the blink itself. Start a conversation with somebody and watch when they blink. I believe you will find that your listener will blink at the precise moment he or she “gets” the idea of what you are saying, not an instant earlier or later. (pg62) *

NOTA ((*) Na página seguinte Murch adianta que “It is important to emphasize that the cut by itself does not create the “blink moment” – the tail does not wag the dog. If the cut is well-placed, however, the more extreme the visual discontinuity – from dark interior to bright exterior, for instance – the more thorough the effect of punctuation will be.” (pg 63)

CAVERNA_23-3D

Murch acentua o carácter descontínuo do cinema mas também da forma como percepcionamos a realidade. Para ele, o caos é filtrado tanto pelo montador (quando um realizador trabalha num sistema industrial tem um controlo limitado sobre a montagem e os produtores dão directamente instruções aos montadores de forma a agradar os distribuidores) como pelo observador: “At any rate, I believe “filmic” juxtapositions are taking place in the real world not only when we dream but also when we are awake. And, in fact, I would go so far as to say that these juxtapositions are not accidental mental artifacts but part of the method we use to make sense of the world: We must render visual reality discontinuous, otherwise perceived reality would resemble an almost incomprehensible string of letters without word separation or punctuation.*

CAVERNA_24-3D3O filme perfeito é, para Murch, aquele em que todos os espectadores piscam os olhos simultaneamente, num fluir constante de imagens e sons. Num filme “murchiano” os espectadores nunca se apercebem dos cortes de um filme. As observações de Walter Murch revelam a vontade totalitária do fazedor de filmes que pretende manipular simultaneamente todos os espectadores e orientá-los num só sentido? Todos sabemos que nem todos os especatdorse reagem da mesma forma à duração do plano, no entanto parece-me que a teoria do pestanejar de Huston/Murché é uma ferramenta interessante para analisar fenómenos de recepção de filme e útil, no sentido em que detecta e isola um comportamento do especatdor face à unidade cinematográfica.

. Quem conhece textos teóricos dedicados à  teoria do pestanejar? Comentários bem-vindos.

Image24
Jorge Prendas em “Cinesapiens”.

NOTA FINAL:

Walter Murch refere também no seu livro sobre montagem que existe uma conexão entre a linguagem cinematográfia e a comunicação gestual, ambas reveladoras da descontinuidade de percepção que tanto os espectadores de um filme como os espectadores da realidade têm. Escreveu Murch: “William Stokoe makes an intriguing comparison between the techniques of film editing and American Sign Languages: “In signed language, narrative is no longer linear. Instead, the essence is to cut from a normal view to a close-up to a distant shot to a close-up again, even including flashback and flash-forward scenes, exactly as a movie editor narration, but also each signer is placed very much as a camera: the field of vision and angle of view are directed but variable.”

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