TIPOLOGIAS DO ESPECTADOR (ESBOÇO)

O ESPECTADOR ESPANTADO KINO-DIÁRIO 21 Novembro 2008

Todas as fotografias pertencem aos filmes Cinesapiens/A Caverna/O Espectador Espantado e podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos) © Edgar Pêra Produção Bando À Parte

TIPOLOGIAS DO ESPECTADOR – MAPA (SUMÁRIO) DE ESTADOS DE ESPÍRITO  DOS ESPECTADORES

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O espectador: Hidra ou camaleão?

“O público, esse monstro de mil cabeças.”*.(António Pedro, tratado de Encenação pg 23)

Os espectadores desdobram-se em múltiplas “personalidades”. Comecemos por elaborar uma tipologia do espectador, de acordo com os seus comportamentos, atitudes e preferências. Apresento em traços largos uma primeira abordagem a uma tipologia do espectador. Dos múltiplos (estados de espírito dos) espectadores podemos destacar:

O Espectador-Marioneta – O espectador-marioneta reage sem ter oportunidade de pensar autónomamente, cenas criadas especificamente para obter uma só reacção do espectador. O espectador-marioneta prescinde da sua autonomia durante a projecção do filme. Vêem o espectador como um prolongamento do filme. No fundo, muitos dos filmes de Hollywood (e não só)  esse objectvo comum, A fadiga intelectual é uma das condições ideais do espectador-marioneta. Se o espectador estiver “demasiado” alerta, terá mais dificuldade em entregar as suas emoções ao director da obra cinematográfica.

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O Espectador Polígrafo, ou Espectador Testemunha-Juíz ou Espectador Naturalista: Tal como o espectador de Hollywood, este tipo de espectador realista ignora ou pelo menos suspende o reconhecimento de que está a assistir a um filme. Mas os filmes naturalistas vão mais longe do que as fitas hollywoodianas. O espectador naturalista crê que está a presenciar algo de real, mas em diferido, um testemunho um acontecimento real.

Como afirmou Ken Loach numa entrevista (citada por Debora Knight) trata-se de chegar ao âmago das emoções e fazer com que os espectadores digam “Christ – that’s true! “(pg175  Naturalism, narration and critical perspective: Ken Loach and the experimental method by Deborah Knight in Agent of Challenge and Defiance – The Films of Ken Loach. Edited by George McKnight ) O artista em busca da verdade emocional, como diria um terapeuta.

Por exemplo filmar o quotidano de uma família numa barraca pode bastar para criar no espectador a consciência de que há uma realidade que deve ser mudada. (o que não quer dizer, claro, que essa operação de mudança seja depois efectuada).

Para Debora Knight, num filme naturalista o espectador é testemunha tríplice: Observador, Testemunha presencial (jurídica) e Júri. Pede que o espectador faça de juíz, que decida sobre aquelas pessoas e aqueles actos. O espectador é um “moralista experimental”. (falta citação pg 64 de “ the reader até fiction”.)

Para Knight, nos filmes naturalistas embora o autor aponte para conclusões particulares, só o espectador pode tirar conclusões. O ponto de vista observacional, que garante a pluraridade dos pontos de vista, deixa qo espectador a responsabilidade de avaliar a situação descrita pelo cineasta. No entanto, Knight realça que o autor naturalista, tal como um cientista, tem uma hipótese que pretende provar. E, tal como o cientista, não pode falsificar os dados se quiser ser rigoroso. Para um autor naturalista trata-se de recrirar condições sociais e emocionais sob a forma laboratorial.

Mas não será que esta ambição científica esbarra com a própria natureza da arte, e em particular, do cinema? Há sempre quem queira definir o que é verdadeiro e falso, o que é honesto e o que é criminoso, no universo artístico. O Espectador Naturalista ideal estará atento à manipulação desses elementos, o que não quer dizer que será capaz de detectar essa manipulação, pelo que um “verdadeiro” filme naturalista exporá as condições em que o filme foi feito. Poderemos afirmar dizer que muitos filmes de Godard são realistas porque deixam expostas as fracturas cinematográficas. Mas este tipo espectador vanguardista é de natureza mais complexa do que o espectador naturalista definido por Debora Knight. Godard utilize estratégias materialistas para criar outros níveis  de realidade. Em “Numero Deux” (co-realizado por Anne Marie Mieville) por exemplo, o ecrã  é dividido e de uma forma simples provocando espanto e deslumbramento no espectador, sem que este se afaste na realidade a que o autor se refere.

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Espectador-projeccionista caseiro. O espectador que tem em sua casa uma sala exclusivamente dedicada ao visonamento de filmes procura prolongar a experiência cinematográfica em sua casa.

Home Cinema não é televisão nem cinema. Quando se apagam as luzes e o ecrã da sala desce, o electrodoméstico desaparece. É mais uma forma híbrida de ver cinema. O cinema desloca-se para a casa e assimila-se a um ambiente familiar. Por outro lado, o multiplex, com a sua comezaina ruidosa aproxima-se do Home Cinema, os espectadores levam para a sala de cinema os seus hábitos domésticos: o triângulo comer beber e ver (imagens em movimento). As fronteiras tanto se esbatem entre Ficção e Realidade como entre cinema e televisão.

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O espectador-resuscitator é um  espectador obcecado em rever momentos filmados de familiars mortis.  Como se fosse possível resuscitar as imagens daqueles que partiram.O espectador-resuscitator extremo dá-se inclusive ao trabalho de recolher filmes de outros familiars, em busca de defuntos desconhecidos. Escrever Beattie a propósito da: “The emphazis here is on the replication of the historical real, the creation of a second-order reality cut to the measure of our desire – to cheat death, stop time, restore loss. here etnography and the home movie meeet insofar as both seek what Roland Barthes has termed “that horrible thing wich is there in every photograph: the Return of the Death”. (Beattie pg. 25)

A vontade de enganar a Morte transforma-se na Morte a enganar o Espectador?

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Cinéfilo Nostálgico. 

Para muitos cinéfilos “o cinema do passado é que era”, mas essa opinião revela mais sobre o espectador do que sobre o estado actual do cinema. Para David Pirie “the tendency of film historians to over-value the distant past at the expense of the recent past, the present and even the future. (…) Moreover, the cinema is so intimately connected with our own personal history, is so much a promulgator of nostalgia, and half remembered emotion, that it is peculiarly susceptible to time-distortion, prejudicing us in favor of the earliest movies we have seen.” (David Pirie pg. 34 The Vampire in Cinema 1977 Hamlyn)

Bruce Issacs coloca a tónica no conceito de autenticidade, que o cinéfilo nostálgico coloca no centro das suas atenções. Afirma Isaacs: “The question for bottomness, the eternal wellspring of authenticity, occludes the authentic to the contemporary. Authenticity is anchored only in the past, manifested in reflection, and in this sense reactionary. Discussing Susan Stewart’s study of nostalgia as a social disease, Hutcheon writes.” Nostalgia makes (and therefore always absent) past into the site of immediacy, presence and authenticity…nostalgia is, in this way, “prelapsarian” and indeed utopian”. This crucial aspect of Utopianism as Nostalgia has been little acknowledged.” Isaacs pg 117)

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Espectador-Actor: em que os espectadores vão para a sala de cinema para colaborar espectáculo, tornando-se efectivamente parte dele. Os fãs de Rocky Horror Movie Show por exemplo vestem-se e actuam na sala enquanto o filme é projectado, recriando em simultâneo as principais cenas deste filme de culto. Os mais activistas chegaram a levar motas para as salas de cinema, reproduzindo as cenas rockabilly deste filme de culto.

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Espectador (de) culto (não confundir com espectador de filmes de culto). O importante aqui está na distância a que se coloca o espectador-de-culto do objecto (o filme trata-se para ele de um objecto-texto)   O filme vê-se, com consciência de que o seu valor está na própria leitura do filme. É o espectador que filma o filme. A lupa, o código que se partilha, muito mais importante do que a visão “simples” do filme. Mune-se de uma legenda contextualizadora. É um espectador-manipulador virtual.

E, dentro das múltiplas facetas do espectador-manipulador, podemos começar por distinguir um tipo de espectador:

Espectador-legendador. É um espectador-criador, espectador intertextual. Este (caso extremo de) espectador manifesta-se também através da inserção de textos (legendas), de sentidos diferentes aos dos filmes originais. Parte de um filme matriz e subverte os eu sentido, frequentemente através de legendas hunorísticas. O espectador-manipulador coloca-os online tornando-se por sua vez criador.. .. Este é um subgénero de filmes que explodiu no Youtube, mas já existia no cinema. Em Portugal foi feita uma versão com legendas “chunga à portuguesa” de um filme de Kung-Fu nos anos 70 (Lauro António/Bandeira Freire).

(ExemploYou Tube de pastiche legendístico : A QUEDA. De Hitler sobra o ridículo das suas poses nazis. Esse aspecto caricatural foi aproveitado de forma hilariante por dezenas de cibernautas que dobraram os diálogos de uma cena – uma reunião em que Hitler aborda severamente a queda do regime e os traidores são expulsos progressivamente de uma sala. Alguns dessse filmes são uma História deste século: O sistema Blue Ray (nazis) foi derrotado pelo HD (Blu-ray has won!) ou Hitler Reacts to McCain’s V.P. Pick (Hitler a propósito da escolha de Sarah Palin). Obama reacts to Sarah Palin” “John McCain’s Election Downfall” “Hunt for the G-Spot” “Hitler finds out he’s gay” “Adolf Hitler VS Petrol Prices”, “Hitler’s wife cheats on him” o inevitável “Ronaldo Stays!” e claro as legendas “post-modernas”: “Hitler finds out his subtitles are wrong” “Hitler Finds Out He’s A Joke On YouTube”)

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No entanto teremos de entender que esta operação de classificação e divisão da  tipologia do espectador refere-se igualmente aos estados de espírito que um mesmo espectador pode ter durante os visionamentos de diferentes filmes. Aliás, tanto podemos atribuir estados de espírito ao espectador como aos filmes. Talvez, à maneira de Fernando Pessoa, teremos de imaginar múltiplos espectadores no mesmo espectador. Esta abordagem camaleónica e “esquizofrénica” tem os seus perigos. O espectador teórico, seduzido pelas sereias11 da relatividade e da diversidade12, pode entregar-se a uma tipologia ad infintum (“frenológica”?). Estas formas elementaristas de teorizar o espectador implicam fronteiras definidas, mas não rígidas. Fronteiras elásticas.

Porém defender a heterogeneidade do espectador  e dos seus estados de espírito não é tábua de salvação teórica: Como frisa Judith Mayne “One of the most frequent criticisms made of the apparatus models is that they presume a homogeneous spectator – totally a function of Western idealism in the case of Baudry, totally male or male-identified in the case of Mulvey. (…) What is not altogether clear is the critical and theoretical difference that a heterogeneous, as opposed to homogeneous concept of spectatorship, would make.” (Judith Mayne pg 53 Cinema and Spectatorship). Parece-me no entranto útil que se desenvolvam  e amplifiquem os estudos dos diferentes comportamentos e estados de espírito do espectador.

 

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