PRÉ-VISÕES & PROTO-ESPECTADORES

KINO-DIÁRIO 3D  ESPECTADOR ESPANTADO 25 Maio 2007

Um filme tem espectadores mesmo antes de ser estreado. Até há pouco o primeiro espectador era o operador de câmara. Era um espectador de um (minúsculo) ecrã kinetoscópico, mas mesmo assim era o primeiro ater uma ideia do conteúdo visual e cinético do rectângulo por onde espreitava. Mas hoje, com a introdução dos monitores ligados às câmaras, toda a equipa pode assistir em directo às rodagens.

O visionamento das rushes, sessões de visionamento de todo o material filmado. é o primeiro momento em que alguém podia ver pela primeira vez o filme projectado. Mas fazem-se projecções de rushes cada vez menos e os filmes passam directamente à sala de montagem. Durante a pós-produção, técnicos, produtor e realizador são espectadores de um filme informe, de um proto-filme. Mas só quando um desses proto-filmes é projectado numa sala com público é que os estes proto-especatdaores têm noção da reacção dos espectadores. Só então há um embate do filme com a sua audiência. Utiliza-se o termo anglo-saxónico previews para essas sessões experimentais. CAVERNA_48

pré-visionamentos. O objectivo de um filme hollywoodesco é vender bilhetes e para isso é necessário é eliminar o ruído no canal de comunicação entre o filme e o público. Não foi Hollywood que inventou as previews, mas aderiu desde cedo a essa metodologia, convidando primeiro os familiares dos técnicos e depois organizando sessões para completos estranhos, realizando depois inquéritos e sondagens.

Frank Capra por exemplo, gostava de gravar o som da audiência para avaliar as suas emoções*. Buster Keaton utilizava as previews para detectar incongruências na narrativa, voltava a filmar e ajustava os pontos de vista da câmara, de forma a que o espectador não perdesse a concentração.

São muitos os realizadores de Hollywood que se deparam com esta metodologia imposta pelas produtoras e distribuidoras.

CAVERNA_49Mas não é só Hollywood que pretende controlar as reacções dos espectadores.  Artistas de vanguarda como Lèger reclamavam para si a arte de bem manipular. Como escreveu Judi Freeman no livro Dada Films:

“Léger’s fascination with the mechanical aspects of movement were coupled with his curiosity about the audience´s response to it.” Para Lèger a arte de manipular o espectador não era um exclusivo do sistema industrial norte-americano: “in “The Woman Climbing the Stairs,” I wanted to amaze the audience first, then make them uneasy, and then push the adventure to the point of exasperation. In order to “time” it properly, I got together a group of workers and people in the neighborhood, and I studied the effect that was produced on them. In eight hours I learned what I wanted to know. Nearly all of them reacted at about the same time. “( Bridging Purism and surrealism: The Origins and Production of Fernand Léger’s Ballet Mécanique).

Mito ou realidade essa sessão organizada por leger mostra até que ponto o autor do filme pretende do espectador uma resposta uníssona.

Em Making Movies, livro autobiográfico sobre o seu percurso profissional inserido na máquina industrial de cinema Sydney Lumet confessa que as previews funcionam apenas para medir gargalhadas e avaliar o impacto das comédias. Para o cineasta trata-se de mais um embuste, em que se escudam administradores, produtores e empresas de sondagens.*

Fritz Lang queixou-se a dada altura de que, mesmo com determinados resultados, um produtor pode querer levar a sua opinião avante, baseado numa qualquer intuição do que é um bom filme para o público: “ ….”

Fellini queixava-se da falta de coragem dos produtores e distribuidores que iam a reboque de um público com uma idade mental de 13 anos. Para Fellini “mature minds want to discover, not to be told.”(falta transcrever o resto da frase 28: …) (…)To go to the movies shouldn’t be just like going ou to dinner, neither should it be like going to school. It has to be a middle way.” (pg 29)

Walter Murch não acredita no valor facial das previews. Muitas vezes os espectadores queixam-se de cenas que são apenas sintomas de outros problemas. O trabalho posterior de remontagem aproximar-se-á mais de um médico ou psicanalista que procure noutros lugares as bases das frustrações os espectadores e a verdadeira “doença “do filme. Murch não pratica a convencional montagem hollywoodiana, nem de som nem de imagem, no entanto partilha esta utopia de manipulação das emoções dos espectadores.CAVERNA_47

E.P: I red * that during the preview of Jaws after a very emotional scene, a character* says, ‘we need a bigger boat’, and everybody laughed a lot, but Spielberg wasn’t expecting that, they didn’t thought of it as  a joke. So they had to change the scene afterwards because of that… which is… for me it reveals that even a director like Spielberg isn’t the True  of the film. The spectator still has some kind of power, and transforms the film?

LAURA RASCAROLI: But it also seems to indicate a small, thin border between what can be scary or impressive and what is ridiculous. Sometimes that border is very, very thin. And it depends for instances on something like the size of a boat.

Na realidade os espectadores das previews são cobaias e os produtores distribuidores exibidores e realizadores de Hollywood ambicionam ser cientista da manipulação de comportamentos. A liberdade do espectador é escassa e são raras as previews que alterem a estrutura de um filme por exemplo.

NOTA FINAL: Sempre fiz visionamentos dos meus filmes antes de terminar a sua montagem. Mas confesso que, mais importante do que sondar as reacções dos familiares e amigos, é a minha própria reacção ao filme, quando estou rodeado de outras pessoas. O eu que está frente ao monitor durante a montagem não é o mesmo que se encontra depois frente ao mesmo filme numa sala com gente. E após essas previews, posso até mudar totalmente a estrutura do filme…

Todas as fotografias podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos) © Edgar Pêra Produção Bando À Parte. Aconselho a verem primeiro este proto-livro usando os óculos anaglíficos, fazendo uma viagem visual por todas as imagens e só depois um percurso pelas ideias escritas, já sem os óculos. Primeiro os conceitos visuais. Só depois o som das palavras ecoa dentro do leitor desses textos. Primeiro um filme mudo e depois um sonoro.

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