KINO-UTOPIAS TRIDIMENSIONAIS

KINO-DIÁRIO 3D  ESPECTADOR ESPANTADO 5 Março 2007

Cine-utopias. Apesar de ainda não saber muito bem qual será o seu tema, encaro esta tese antes de mais como uma utopia: pretendo conceber filmes e textos de reflexão sobre o acto de ver cinema, que contribuam para a sua evolução. Com a esperança de que se façam filmes ainda melhores, pelos autores e pelos espectadores. Todos os filmes são (re)construídos pelos espectadores e parte desta viagem será feita no sentido de descobrir de que são feitos esses múltiplos olhares sobre o cinema.

No essencial, ainda se vive nos primórdios do pensamento do cinema sobre o cinema, isto é, hiper-cinema que reflicta explicitamente sobre o seu próprio tema. Lynch tem (de certa forma) o seu Mulhound Drive, Godard tem as suas Histoire(s) du Cinéma, mas raros são os filmes que explicitamente se debruçam sobre o cinema e ainda menos sobre a sua recepção pelo espectador. A tradição de filmes sobre cinema remonta ao Homem da Câmara de Filmar (1929) de Dizga Vertov, gesto fundador do “documentarismo de autor”.. É um filme que obriga a   (re)pensar o papel do cinema e a sua relação com o espectador. Mas são raríssimos os ensaios fílmicos sobre o espectador de cinema. A História Visual do Espectador ainda está por sistematizar.

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Constatada essa lacuna fica desde já tomada a decisão de produzir, para além de um texto, um conjunto de filmes  que reflictam, a diversos níveis, sobre o cinema e o seu espectador. Filmes que acumulam memórias díspares do acto de ver cinema. Filmes em que o espectador possa projectar a sua cinefilia no ecrã, cada um de acordo com as suas referências. Filmes que remetem para as memórias do cinema, (com uma atenção especial ao cinema  de género – cujas fórmulas são facilmente identificáveisI e filmes que rescrevem e reinventam a História do Cinema, que recuam aos primórdios do cinematógrafo para construir uma universo paralelo, em que o cinema tomou outros rumos, sem obedecer aos esquemas dramáticos lineares e folhetinescos dominantes.

Estes tipos de filmes  obras cuja utopia é a criação de um objecto original, combinar-se-ão com outro tipo de filmes que apostam na capacidade de gerar emoções e pensamentos nos espectadores, através da evocação de memórias cinéfilas.

Todos estes filmes obedecem a um desafio: como conceber outra forma de fazer cinema sobre cinema enquanto linguagem? Deste modo, há que considerar as múltiplas interpretações e níveis de recepção, a diversidade de pontos de vista. O que está em causa neste filme-tese é a sua capacidade de dar a ver o “seu” filme sobre o espectador, um espelho em diferido sobre o acto de ver cinema. Um filme que vise proporcionar um outro nível de conhecimento ao espectador, com textos escritos/ditos filmados em interacção com as imagens dos espectadores.  Sob a forma de texto escrito no ecrã far-se-á uma revisão do pensamento teórico, que, em interacção com as entrevistas e as imagens encenadas, produza uma articulação teórica própria.

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No final do século XIX o espectador começou por se espantar com as proezas do animatógrafo. Quando o 3D digital surgiu no início do sec XXI, o cinema regressou às suas origens (sobretudo o cinema infantil de animação mas não só) e é de novo fenómeno de feira, criando uma nova geração de espectadores com óculos escuros. Uma nova revolução do espanto. A imagem duma criança a tentar apanhar umas pipocas 3D que “avançam” na sua direcção faz lembrar o espectador crente primitivo que fugia do comboio ou se aproximava do ecrã para tocar nas personagens.

Nos actuais filmes estereoscópicos, o espectador tem a ilusão duma profundidade de campo inédita. A perspectiva renascentista sofreu a sua primeira grande revolução. Dividida em múltiplos planos de convergência, a percepção da perspectiva foi completamente alterada: começa numa zona de miragem que fica para além do ecrã/tela e que se aproxima gradualmente até aos olhos do espectador. Vive-se um momento privilegiado em que é possível estudar a evolução do impacto do cinema 3-D sobre o espectador. Podemos comparar o espectador 3-D com o espectador 2-D e especular sobre o seu futuro. O “cine-sapiens-sapiens” (espectador 3-D) triunfará sobre o “cine-sapiens” (espectador 2-D)? : Quando o cinema for holográfico, qualquer filme bidimensional será considerado como não realista? O cinema digital 3-D apresenta-se hoje como nova fórmula capaz de espantar de novo o espectador que já viu “tudo”?

Pretende-se com este livro-filme viajar pelo cinema, dos seus primórdios ao 3-D ( e além). Daí que tenha optado por filmar e ilustrar o livro no formato 3D. Recorrendo á mais recente tecnologia de captação de imagem, procura-se também aproximar o espectador de uma forma de ver (cinema) contemporânea.

Os filmes e as imagens do livro ao serem exibidos nesse formato poderão incluir diferentes níveis de convergência/profundidade,o que permitirá destacar os textos das imagens por exemplo, o que permitia também dar, literalmente, outro relevo ao texto escrito no ecrã. Explorando os limites do 3D poderemos ter uma dinâmica acrescida ao fluir das ideias, criando assim universos com existência própria.

4-cópiaNOTA FINAL: Quando filmei os adeptos de futebol em “És a Nossa Fé” apercebi-me da riqueza e do potencial visual e antropológico do estudo das reacções dos espectadores. Prolonguei essa pesquisa em “Visões de Madredeus” e só mais tarde vislumbrei um filme sobre os espectadores de cinema que documentasse ideias e acções sobre o acto de ver filmes . Foi esta uma das géneses deste projecto.

NOTA: Todas as fotografias podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos) © Edgar Pêra Produção Bando À Parte. Aconselho a verem primeiro este proto-livro usando os óculos anaglíficos, fazendo uma viagem visual por todas as imagens e só depois um percurso pelas ideias escritas, já sem os óculos. Primeiro os conceitos visuais. Só depois o som das palavras ecoa dentro do leitor desses textos. Primeiro um filme mudo e depois um sonoro.

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