MORTE (E RESSURREIÇÃO) DO CINEMA

KINO-DIÁRIOS – O ESPECTADOR ESPANTADO 17 Abril 2013 

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Muito se tem escrito sobre a morte do cinema. Em Portugal, por exemplo, as salas de cinema são cada vez em menor número. Mas os filmes não desapareceram, os espectadores não morreram. Mudaram de lugar.

“We don’t sell movies, we sell seats.” afirmou Michael LoewEsta é uma frase que pertence a uma época, hoje os lugares são tendencialmente gratuitos, muitos filmes são vistos em casa, nas nossas cadeiras.

Espalhados por múltiplos ecrãs,, os filmes jamais voltarão a existir como espectáculo colectivo?

Mas são os espectadores que morrem. Com eles vão-se muitas memórias daqueles momentos em que os filmes eram projectados em grandes e sofisticadas salas.7 Outubro 2015
Fala-se muito na morte do cinema, mas são os espectadores que morrem, o cinema continua vivo. E tal como uma planta que brota entre duas pedras da calçada, surge onde menos se espera. Uma árvore não faz uma floresta, e uma flor no passeio não chega para que possamos dizer que um filme visto num telemóvel possa ser considerado cinema. Mas os filmes sobrevivem, são vírus dificilmente extirpáveis. Vivemos rodeados de lianas de imagens (e sons).

O cinema  crê-se imortal? Pensa-se que preservando os filmes, se preserva o cinema.

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E-P.: Fala-se muito na morte do cinema e muitas vezes o que está subentendido é que é a morte da sala de cinema e não propriamente do cinema?

FÁTIMA CHINITA -(morte) da sala de cinema e da experiência cinéfila de consumo continuado, etc mas isso para mim é uma falsa questão, ou seja, antes de 1895  da famosa projecção dos Lumiére já havia evidentemente outras projecções cinematográficas, nomeadamente os irmãos Skladanowsky tinham feito a mesma coisa na Alemanha e havia os filmes desde 1893 do Edison, portanto quer dizer, não podemos desconsiderar essas situações e dizer que aquilo não era cinema não é… É evidente que o facto daquela primeira exibição pública dos Lumiere ter tido tanto êxito veio de certa maneira a cristalizar aquilo como uma experiência cinematográfica, mas eu considero que já havia outras antes e que há outras depois, portanto…

É evidente que a sala será sempre, para mim enquanto espectadora, o local privilegiado mas agora se calhar vou fazer uma confissão terrível. Eu vejo muitos filmes e não os vejo todos em cinema, em sala portanto isso não…não me retira o prazer de os ver nem a importância daquilo que vejo. É evidente que usufruo mais e gosto mais, e há toda uma outra dimensão adicional quando os vejo em sala, é evidente mas não me parece que a sala seja a única hipótese de ver cinema e cada vez mais temos de considerar outras situações não é… que também são elas próprias muito tecnológicas e muito fetichistas.

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Em “O Salário dum Zappeur” Serge Daney divide os espectadores em duas classes: os que gostam de ir ao cinema e os que gostam de ser levados pelo cinema. Parece-me que esta última espécie de espectadores, à qual Daney pertencia, não teme o fim das salas de cinema porque prolonga o seu gozo nos filmes através das múltiplas plataformas onde eles são exibidos. Isto não quer dizer que a sala de cinema não seja a forma natural de se ver um filme. Mas é fundamental analisar os diferentes tipos de espectadores e diferentes modos de recepção actuais.

O cinema é uma instituição mutante que nunca se chega a fixar totalmente: variam o tipo de salas, de visionamentos, o número de filmes que passam, as condições em que são vistos, com horários ou sem horários, com ou sem  lugares marcados, um multiplex localizado num centro comercial ou um cinema para cinéfilos…

Ou seja, ver um filme dos anos 1920 não tem nada a ver com ver um filme dos anos 1980 e ver um filme nos anos 1960 não é o mesmo que ver no início do século XXI. Há uma evolução da instituição a todos os níveis, da forma de exibição à estética dominante., Existem por exemplo determinados padrões para definir o que e um plano bem enquadrado dentro do território do belo, o que não é e o que é um filme. E isto segundo os mais variados critérios das diferentes correntes estéticas:  do cinema de Hollywood, do cinema de autor, da estética trash, etc…

O cinema depende das contingências da sua exibição. Os filmes são “consumidos” de diferentes formas consoante as épocas.  E nesta época podem ser vistos em múltiplas frentes. Numa grande capital tanto se pode ver um filme  a uma cinemateca, no silêncio e recato do cinéfilo, como a um cacofónico cine-teatro de centenas de pessoas. Tanto se pode visionar um filme num telemóvel como numa janela holográfica das Galerias Lafayette.

O cinema, enquanto criador da ilusão de imagens em movimento, é uma instituição em mutação constante. Não tem um verdadeiro princípio, pelo que nunca terá um verdadeiro fim. Enquanto a visão predominar sobre os outros sentidos, existiu  e existirá sempre algo a comunicar através de imagens, quer sejam holográficas ou animadas por uma lanterna mágica ou uma tocha. (Isso não quererá dizer que a linguagem das imagens em movimento tenha atingido o grau de complexidade que a escrita atingiu. Mas por outro lado a leitura também se pulverizou pelas redes sociais e já não podemos dizer que a cultura escrita dominante seja superior em complexidade à cultura cinematográfica vigente.)

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NOTA: Todas as fotografias  podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos)  © Edgar Pêra Produção Bando À Parte

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