TIPOLOGIAS DO ESPECTADOR (ANEXO PATOLÓGICO)

TIPOLOGIA DO ESPECTADOR – 2 CASOS PARTICULARES

As teorias e as ideias tanto podem partir de uma auto-reflexão, como de uma observação empírica, aliás, é praticamente impossível conceber uma sem a outra. Daí a importância que dou nesta investigação ao estudo de casos particulares, que podem servir de trampolim para novas hipóteses.

Como se sabe, a normalidade é um abstracção estatística. Pretender elaborar uma tipologia de comportamentos e estados de espírito dos espectadores, só se pode entender como uma actividade sem pretensões a generalizações. Uma viagem pelas experiências dos espectadores, sem cordenadas teóricas prévias.

Durante as rodagens de O Espectador Espantado, o actor Miguel Pereira falou-me de dois casos “patológicos” de espectadores de sofá. Pouco depois registámos na sala Luis de Pina da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema  uma entrevista em que Miguel, contou-me, com a sua veia de actor de comédia, estas duas estórias sobre dois modos singulares de ver um filme, que- através da ironia – mostram como é complexa a tarefa de mapeamento dos estados de espírito dos espectadores. um dos casos tratava-se de um espectador altamente sugestionável, totalmente imersivo, e o outro de uma espectadora incapaz de lidar com o desconhecido, ansiosa pela racionalização de qualquer lacuna.

EP: Então queres contar-nos o caso do “espectador dos tremeliques” e da espectadora “ansiosa-racionalista”?

MIGUEL PEREIRA: Isso é aquilo que eu pessoalmente chamo “o espectador emocional”, Tive um colega de casa que era mesmo muito concentrado quer a ver filmes, quer a ler um livro. É aquele tipo de pessoa que se tiver a ler um livro, chegas ao pé dele, falas com ele e ignora-te completamente e ao fim de dez minutos diz: “o quê, disseste alguma coisa?”.

Quando nós estávamos a ver filmes, e atenção, não estou a falar de uma sala de cinema, estou a falar em casa numa televisão ou computador, e nem sequer são filmes de terror, estou a falar de filmes perfeitamente normais em que alguém está simplesmente a falar e de repente eleva assim um bocadinho a voz… Ele literalmente assustava-se!  Assustava-se cada vez que alguém espirrava num filme. Estar a ver um filme sentado num sofá ao lado dele… Parecia que tinha Alzheimer ou uma doença qualquer porque ele estava a ver o filme e volta meia… Sentíamos o sofá todo a tremer, mas isto com as coisas mais inacreditáveis.

Lembro-me de estarmos a ver um filme do Roman Polanski, o Frenético, com o Harrison Ford e pronto, tudo bem que é um filme de ação e suspense, mas lembro-me de haver uma cena em que eles estão a ser perseguidos num parque de estacionamento subterrâneo e vão a correr, o Harrison Ford abre uma porta com, a porta bate na parede e ele eassustou-se só com esse barulho! Eu achava isso absolutamente extraordinário. Ao inicio achei engraçado, a uma altura tornou-se uma distração, até porque nós estávamos a ver os filmes com a namorada dele e quando ela dizia isso, ela virava-se para ele: “oh Reco que horror, é sempre a mesma coisa!”. E pronto, não basta ter ali aquele a saltar, ainda tenho outra ao lado dele a dar-lhe na cabeça. Meu deus do céu onde é que eu estou metido…

CAVERNA_45O que nos leva então ao outro tipo de espectador, que era esta a namorada dele, eu pessoalmente chamo a espectadora racional. Ela tinha que estar constantemente a racionalizar o filme, ou seja, o último filme que eu vi com eles por exemplo, foi o The Dark Knight Rises, o ultimo filme do Batman do Christopher Nolan, que quando aparece o personagem do Bane, aquele vilão grandalhão que tem aquela máscara, assim que ele aparece ela imediatamente pergunta: “o que é aquilo que ele tem na cara?”. Eu tenho de me virar para ela: “oh Xana, perguntas dessas a esta hora não por favor”. E estava constantemente a fazer perguntas destas, porque? Porque ela tem de racionalizar aquilo na sua cabeça, se aparece um personagem novo ela perguntava logo: “quem é? Quem é esta personagem? O que é que ela vai fazer?”. Tinha de saber tudo, não aguentava aquele suspense de não saber como é que as coisas iam acabar. O que nos leva então a mais uma situação, para mim é perturbadora mas pronto, podemos debater isso. Eu até creio que foi este filme, o The Dark Knight Rises, nós estávamos a ver o filme, pronto, o namorado dela sentado ao lado com os seus tremelicos e ela a fazer as perguntas mais idiotas possíveis, e de repente tivemos de parar o filme para eu ir à casa de banho ou falar o telemóvel, não me recordo, e quando eu voltei dei com ela a ver o final do filme. Ela deu-se ao trabalho de enquanto está parado querer ver como é que isto vai acabar. Porque ela não aguentava…

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Eu adoro isso, adoro estar a ver um filme em que estou ali verdadeiramente a vibrar com aquilo: “epá, como é que será que isto vai acabar??!!!”. Mas eu gosto de desfrutar disso, gosto de desfrutar dessa tensão emocional,  estou ali a sofrer, no fundo… Eu adoro isso e um filme que me faça sentir isso é um filme fantástico e disfruto dele até ao fim. Na altura eu achei que esta forma dela apreciar o cinema era um bocado… eu até considerava que ela não sabia apreciar o cinema, mas agora talvez pensando isto de outra forma, lá está, talvez o facto de ela ver como é que o filme acabou e já não ter essa ansiedade, talvez lhe permitisse ter outro tipo de abordagem, apreciar o filme de outra maneira colocando essas emoções de lado. Eu pessoalmente não acredito que isso seja uma boa forma de apreciar cinema, quando vemos um filme a primeira vez acho que não devemos saber como é que ele acaba. Mas há várias formas de apreciar um filme e talvez essa seja uma delas.

Para além de retratar estes dois tipos de espectadores, Miguel Pereira elabora também a sua teoria empírica, baseada na sua experiência de cinéfilo e de ex-finalista da Escola Superior de Cinema.

EP: E quando chegaste à adolescência o que é que te espantava mais?

MP: Quando cheguei à adolescência aquilo que me espantava mais era a capacidade de conseguir envolver-me a 100% no filme. Ou seja, haviam muitos filmes com os quais me identificava e muitas vezes imaginava que era o protagonista. Quando um filme tem essa capacidade de nos meter dentro da história ao ponto de eu muitas vezes ir ao cinema, lá em Beja, ia sempre a pé porque Beja é uma cidade pequena, e sempre que saia do cinema ia para casa a pé durante a noite e a pensar naquilo, a fazer comparações com a minha vida ou alguns aspectos da minha vida. Foi isso que sempre me emocionou no cinema, aquela capacidade de nós nos podermos relacionar e também colocar as coisas em perspectiva. No cinema as coisas são sempre muito mais simples do que na vida real. O cinema muitas vezes simplifica a vida e coloca as coisas numa certa perspectiva. Isso espantou-me bastante, o facto de eu conseguir de uma forma quase até, não digo doentia, mas muitas vezes via filmes para escapar à realidade. A realidade muitas vezes era uma coisa muito negra, muito aborrecida e espantava-me o facto de eu conseguir, no cinema, encontrar um escape para essa realidade e muitas vezes até ganhar força para voltar a enfrentar a vida. Comecei a ver o cinema mais como uma força de intervenção que nos toca, tanto no coração como na mente.

EP: Então também eras um espectador crente, de alguma forma. Projectavas-te, enquanto estavas no cinema. Temos de diferenciar, o espectador crente distingue-se do espantado, porque o espantado está muito mais atento ao próprio processo cinematográfico. Tu estavas muito mais atento à intriga e às personagens.

MP: Sim, sim. Na primeira vez que vejo um filme sempre foi essa a minha abordagem. Pode-se dizer que eu sou mais espectador crente quando vejo um filme pela primeira vez. Quando vejo uma segunda vez já é na qualidade de espectador espantado, já é mais reparando nesses pormenores, quer seja os ângulos de câmara, a música, quando é que a música entra ali naquele sitio, como é que o cineasta nos manipula emocionalmente para poder contar a sua história. Portanto acho que consigo ser os dois, não necessariamente na mesma sessão, mas na primeira sessão como espectador crente e na segunda como espectador espantado. Acho que que se pode dizer isso sim.

EP: Então e quando é que te começaste mesmo a espantar com o cinema?

MP: Foi depois da adolescência, quando tinha cerca de 18 anos, comecei a interessar-me muito mais pelo processo cinematográfico, inclusivamente ver making of, para  tentar perceber qual era a mecânica por detrás daquilo. Lembro-me de um filme que vi em 2000, o Hollow Man-O Homem Transparente, com o Kevin Bacon, que os efeitos especiais daquilo espantaram-me completamente. Acho que esse foi o filme do qual eu vi mais making of, eu devorava aquilo tudo para perceber como é que eles tinham feito aquilo. Esse filme verdadeiramente espantou-me do ponto de vista técnico.

EP: Mas eram os efeitos?

MP: Aquilo era sobre um homem que se torna invisível. Depois de ele ficar invisível, nós conseguíamos mesmo ver, eles punham um lençol em cima dele e o lençol parecia mesmo que estava ali, ou seja, não era assim um efeito especial feito por computador, artificial, era uma coisa que estava mesmo ali. Sentia-se que tinha textura, e depois vim a perceber através do making of como é que eles fizeram isso, que o ator estava verdadeiramente lá, todo maquilhado com azul ou verde, e depois eles digitalmente apagavam-no e faziam uma segunda take sem o ator lá para conseguir preencher o espaço vazio. Portanto aquele lençol que eles colocavam em cima do homem fantasma, que me espantava tanto por ser tão real, é porque era mesmo real. Estava mesmo efetivamente lá.

CAVERNA_23-3D

EP: Houve nenhum filme que tu visses em 3D que te espantasse?

MP: Um filme que me espantou a nível do 3D foi obviamente o Avatar do James Cameron. Sei que é um bocado o cliché mas é verdade, eu lembro-me que existe uma cena no Avatar, quando o personagem vê o seu avatar pela primeira vez, ele aparece em primeiro plano e está cá atrás o aquário que contem o Avatar. Ele fica entre nós e o Avatar, e esse 3D está tão bem feito que eu dei por mim inconscientemente a espreitar de lado. É como se a pessoa que estava à minha frente se tivesse posto de pé naquele instante. E eu juro que por uns momentos pensei que fosse isso que estivesse a acontecer, até me ter apercebido que efetivamente não, aquilo pertencia ao filme. Isso espantou-me bastante, mas lá está, isso foi a primeira vez que eu vi o Avatar. Como eu disse, quando vejo um filme pela primeira vez tento não reparar demasiado na técnica, apesar de ser um pormenor muito interessante que hei de recordar sempre. Esse momento do Avatar em que me desviei para ver o que é que estava atrás do personagem. 

EP: Tu eras completamente crente que aquilo se estava a passar ali á tua frente não é?

MP: Sim, aí foi ao ponto de confundir o personagem principal com a pessoa que estava sentada à minha frente, foi algo que me fez rir no meio do cinema e a as pessoas viraram-se para mim: “peço desculpa, estou a perturbar a sessão”. 

EP: Então e o que é que te espanta, do ponto de vista da linguagem, no cinema?

MP: Sim, a linguagem também me espanta muito, por exemplo, eu fiquei muito espantado sobretudo quando vi pela primeira vez o filme do Gus Van Sant, o Elefante e também o Last Days. Espanta-me a forma como ele consegue filmar cenas de cinco minutos só a seguir um personagem por um corredor sem música em que a única coisa que se ouve é o espaço do personagem e espanta-me que eu consiga ficar intrigado com isso. Que eu consiga verdadeiramente… Que chegue a um ponto que eu me incline para a frente a ver o que será que vai acontecer a seguir. É hipnotizante, às vezes existem coisas, linguagens tão simples que não nos distraem e deixam que nós nos consigamos verdadeiramente concentrar na história, e verdadeiramente consigamos sentir aquilo com mais impacto.

Lembro-me também do filme Dogville, do Lars von Trier, em que praticamente não existe cenário, o cenário é todo construído pelos actores através dos seus gestos e chega a um ponto em que eu nem me apercebi disso, nem sequer me apercebi que eram os atores que estavam… que não havia cenário, eu senti que o cenário existia e quando dei por mim penso “há pois é, é verdade, isto não tem verdadeiramente nenhum cenário” e essa capacidade de nos iludir ao ponto de nós nos esquecermos que estamos a ver uma ilusão à nossa frente, isso espanta-me imenso e cada vez que se vê assim um filme que tem uma linguagem nova, isso também me espanta muito.

NOTA: Todas as fotografias  podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos) © Edgar Pêra Produção Bando À Parte

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