Autor invisivel ou Espectador invisivel? Ver ou indexar?

KINO-DIÁRIO O ESPECTADOR ESPANTADO – 21 Outubro 2015 

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Autor invisivel ou Espectador invisivel?

O espectador pode ignorar o autor durante um visionamento mas um filme pode ignorar a presença do espectador ? Tal como o celebre questão da fisica: uma árvore que tombe na floresta fará algum som se não estiver presente ninguém por perto? (um ponto de vista antropoêntrico, porque na floresta haverá sempre um ser vivo nas redondezas, capaz de ouvir ou sentir a queda, mas mesmo assim podemos imaginar uma árvore isolada numa cratera.Essa árvore provocará algum som?)

Mas todo o filme imagina um autor, cada plano impõe o seu ponto de vista. O espectador não é visto mas é imaginado, antecipado pelo fazedor do filme. E é imaginado no duplo sentido, isto é, através dos dois sentidos implicados: a visão e audição. Tanto o visionador é imaginário como o ouvinte. A preocupação com o Ouvinte imaginário remonta aos primórdios , ainda o cinema sonoro se tinha implantado.

James Lastra (em Perception, Responsability, Modernity: Sound Technology and the American Cinema) cita uma teoria de 1926 que já se refere ao “ouvinte imaginário”, a propósito das condições ideais de gravação e audição de um filme. Para Lastra trata-se do “invisible auditor” de uma teoria realista da banda sonora. Este autor realça o facto de que desde 1924 que os engenheiros de som buscam uma forma de reprodução que simule por completo a sensacão de estarmos a ouvir como se estivessemos no próprio cenário do filme. E o som tem evoluido nesse sentido da ilusão total de reprodução da percepção auditiva, através por exmplo, das colocação de colunas espalhadas pela sala de cinema, do Sensarround aos altifalantes colocados no tecto da tecnologia Dolby Atmos….O som viaja por toda a sala, mas imagem apenas consegue criar a sensação de que algo se aproxima do espectador, através da tecnologia 3D digital.

Do ponto de vista do som, podemos afirmar que a autoria apenas se dilui na multiplicação de fontes sonoras, se a banda sonora estiver ao serviço do realismo espectacular hollywoodiano ou do naturalismo de (algum) cinema de autor. Tanto o aparecimento do 3D como do Atmos, não impedem que o autor se manifeste, e por consequência, que retire o manto da invisibilidade ao espectador. O Autor invisivel pressupõe um Espectador invisivel?

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Ver ou indexar?

Se não houver um espectador para ver um filme, será que esse mesmo  filme guardado numa lata ou num ficheiro existirão? Para Zizek têm uma existência interpassiva. i.e. o espectador imagina que viu os filmes arquivados que nunca visionou porque associa o acto de arquivar ao de ver.

Segundo Boaz Hagin a “interpassividade” diz-nos que “ I am active while being passive trough another.” (pg.8) E cita Cristo como exemplo de interpassividade: morreu na cruz para que os crentes pudessem viver, ou acredita por nós para que não tenhamos de acreditar directamente. Segundo Zizek “the very awareness that the films I love are stored in my video library gives me a profound satisfaction, as if the VCR is in away watching them for me”. (…) “I can continue to work in the evening while the VCR passively enjoys for me.” (…) I use the term “interpassivity” to signify any activity (dying, believing, doubting, viewing, having a good time) that is externalized, in other words, done by maintaining that someone else does it.” (na pg9)

A inter-passividade não passará de uma fantasia do espectador? Uma fantasia possessiva, fetichista, tal como o dono de uma biblioteca imagina que leu todos os livros só de olhar para as lombadas. A indexação confunde-se com a observação, tal como alguém no Facebook pode colocar um gosto numa notícia sem sequer abrir o link respectivo, i.e : sem ver nem ler o artigo referido. Basta a leitura do título da notícia.
A indexação substituiu o visionamento? Assim como anteriormente a visualização de uma paisagem num ecrã substituiu a experiência de a ver com os próprios olhos? Viaja-se, vê-se e ouve-se cada vez de forma mais abstracta. A tendência é para a abstracção da realidade (de que Platão terá sido pioneiro teórico). A condensação da informação faz do espectador de hoje um leitor de índices?

Vem-me à memória Pessoa, Borges e Lovecraft, com as suas narrativas constituídas apenas de títulos de capítulos e indicações genéricas sobre temas a abordar futuramente. No fundo, o que estes escritores anteciparam foi o triunfo da indexação, a vitória do nome sobre a coisa. 

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NOTA: Todas as fotografias  podem ser vistas em 3D com óculos anaglíficos (azuis e vermelhos) © Edgar Pêra Produção Bando À Parte.

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