KINO-IMPRINTING (ENTREVISTA MANUEL DOMINGOS PARTE 1)

KINO-DIÁRIOS D’O ESPECTADOR ESPANTADO 

(FOTOS 3D ANAGLÍFICAS)

Os primeiros filmes a serem visionados formam um imprinting no espectador? Podemos estabelecer uma analogia entre  este fenómeno etológico e o visionamento de filmes? O primeiro filme que vemos estabelece um elo inquebrantável com o espectador e serve como um guia de visões futuras? 

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E.P: Acha que, quando da primeira vez que vemos um filme temos uma espécie de imprinting?

MANUEL DOMINGOS: Temos. Essa é a razão porque alguns que me causam um impacto maior e me levam a vê-los uma segunda, terceira, quarta e décima vez, para ir estudando o filme. Há filmes que merecem ser estudados. Uns, apenas vistos. Isso é como um livro. Outros merecem ser estudados, e eu pessoalmente quando estudo algo gosto de ir outra vez à fonte, para ir vendo e revendo conceitos e encontrar nas entrelinhas aquilo que não encontrei nas linhas.

E.P: Acha que, por exemplo, aquando da primeira vez que vemos um filme temos uma espécie de imprinting?

MANUEL DOMINGOS: Temos. Essa é a razão porque alguns que me causam um impacto maior e me levam a vê-los uma segunda, terceira, quarta e décima vez, para ir estudando o filme. Há filmes que merecem ser estudados. Uns, apenas vistos. Isso é como um livro. Outros merecem ser estudados, e eu pessoalmente quando estudo algo gosto de ir outra vez à fonte, para ir vendo e revendo conceitos e encontrar nas entrelinhas aquilo que não encontrei nas linhas.

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E.P: Em que é que entende esse tipo de imprinting?

MANUEL DOMINGOS: Imprinting, que depende muito segundo a neurociência, a que eu me dedico a há muito tempo, mas não só (hoje aliás vou-me dedicando a muitas coisas que não me reduzem tanto à neurociência cognitiva), resulta muito daquilo que anatomofisiologicamente falando, a minha região pré frontal, a região anterior do meu cérebro, permite que eu faça, que é tirar ilacções, criticar, fazer abstracções, programar de forma sequenciada as minhas atitudes, etc, e encontrar até interesse ou desinteresse naquilo que vejo. Por outro lado, permite também fazer uma coisa interessantíssima, que é, uma vez ligada a uma estrutura que é o sistema límbico e que é a sede primeira das emoções, permite-me cognitivizar essas emoções. E esse imprinting, que é de alguma forma tutelado (tanto quanto se sabe) por esta região, vai permitir-me de facto ter uma ligação a, e essa ligação a permite-me ter um maior ou menor impacto relativamente àquilo que vejo, oiço e vivencio. E isso ou me liberta daquilo a que estou exposto, ou então faz-me voltar. E eu acho que cada vez que volto tenho um imprinting e tenho múltiplos imprintings. Vai havendo sempre um renovar dessas situações. Mesmo quando eu já estou a fazer o estudo final da coisa, isso ainda existe.

EP: Há um crítico, o Serge Daney que diz que temos de fazer o esforço por voltar à primeira vez a que vimos um filme para nos podermos continuamente espantar.

MANUEL DOMINGOS: Faz todo o sentido. Aliás, nós temos que constantemente voltar às origens para percebermos o progresso que fizemos e fazer uma comparação entre as coisas. Mas o voltar à origem é fundamental, o voltar à essência, regressar à essência do conhecimento é fundamental para percebermos o quão avançámos ou não, o quão diversificámos esse avanço ou não, e quilate do impacto que isso tem em nós. Ou não. Voltar outra vez, tentar perceber se de facto o regresso ao ponto de partida nos permitiu avançar ou não.

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E.P: Tem memória do primeiro ou dos primeiros filmes que viu no cinema?

MANUEL DOMINGOS: Sim, tenho. Tenho memória. Recordo-me perfeitamente aos 5 anos, 6 anos, ter visto os primeiros filmes que eram muito na base dos contos de fadas ou contos ligados às histórias infantis. Recordo-me da Branca de Neve e dos Sete Anões, recordo-me das belas adormecidas, Cinderelas, de toda uma série de filmes que havia naquela altura para estas idades. Não havia muito mais. E ainda me recordo perfeitamente deles.

E.P: O que é que o espantava mais?

MANUEL DOMINGOS: Espantava-me de facto toda a essência das histórias. Posso até dizer, se bem me lembro, que me sentia às vezes parte da história e com vontade de encarnar um dos personagens desses diversos filmes que vi. Lembro-me perfeitamente de na Bela Adormecida haver um cavaleiro que ia matar o dragão. Eu ainda me recordo, teria 5 6 anos, lembro-me de gostar aquele cavaleiro. Aquela sensação de poder sobre o mal, vendo as coisas dessa maneira hoje. Naquela altura queria o cavalo, a espada e dar cabo lá do bicharoco. Mas de facto, naquela altura, foi isso que eu me recordo hoje, vendo as coisas assim da maneira como hoje penso esse fenómeno, que e ra assim que eu me sentia.

EP: Era, de alguma forma, como se entrasse no ecrã.                     

MANUEL DOMINGOS: Sim, sim. Aliás, isso aconteceu-me várias vezes. Sobretudo se eu me identificasse muito ou com o argumento ou com algum dos actores. Acontecia-me muitas vezes estar às tantas dentro do próprio filme.

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E.P: E na adolescência, deslocou o seu deslumbramento e espanto para que tipo de filmes?

MANUEL DOMINGOS: Na minha adolescência comecei por deslocar o meu deslumbramento, curiosamente, para os filmes dos Beatles, que rodaram inclusive aqui no Cinema S. Jorge. Recordo-me perfeitamente de me deslumbrar com aqueles filmes. Mais tarde obviamente que me deslumbrei, já pelos meus 16/17 anos (embora os filmes fossem para 17 anos, aos 16 já éramos capazes de entrar na sala com algumas manigâncias), já com um contexto feitos num contexto erótico, que era uma coisa que pouco ou nada se via naquela época, mas quando nós conseguíamos ver a alça do soutien já era qualquer coisa….

E.P: Portanto um certo fetichismo.

MANUEL DOMINGOS: Sim, sim. Porque não dizê-lo? Com certeza.

E.P: E hoje em dia. O que acha que o espanta mais quando vê um filme?

MANUEL DOMINGOS: O que me espanta mais é a grande evolução em termos de efeitos especiais, de rigor, que muitos filmes têm. Outros não tanto. Mas o que me espanta é o cinema em si. O cinema evoluiu de uma forma estrondosa e o que me espanta de facto é o aparato tecnológico. Mas já me espantou mais. Hoje quando vou ver um filme onde o aparato tecnológico é muito grande, muito evidente, já estou mais ou menos a espera que isso acontece. Já não sou das pessoas que se encolhem quando o fantasma passa. Pelo contrário, até já fico aborrecido se ele não passar.

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© Edgar Pêra produção Bando À Parte

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