FILMES-PENSAMENTO

Filmes-pensamento. O Espectador Espantado “obedece” também a uma estética neuro-realista. São imagens mentais que procuram uma correspondência fílmica. Por exemplo, quando cozinhamos, somos capazes de executar as tarefas culinárias, pensar nos ingredientes que precisamos, anotar mentalmente que precisamos de comprar determinado produto em falta, pensar depois em dinheiro e numa conta por pagar, e ao mesmo tempo refletir sobre um texto que estamos a escrever (como este).

Montagem Percepção & Pensamento. É verdade que muitos dos meus filmes exigem uma ginástica mental, é preciso estar em “boa forma” psíquica, o que provoca uma fractura entre diferentes estados de recepção do espectador, sendo que existem espectadores incapazes de lidar com um certo ritmo de montagem, sobretudo em filmes que envolvem pensamentos teóricos.

Isso não quer dizer que eu seja contra os planos-sequência (que podem conter no seu interior todos os elementos da montagem) ou contra os planos que não terminam quando uma personagem sai de campo (tudo depende do som que surgir depois dessa saída de campo). O que eu acho (o que a minha sensibilidade dita) é que o prolongar de um plano não aumenta necessariamente o seu entendimento ou fruição. Isso não quer dizer que uma pessoa precise de fazer sete planos para apertar os atacadores de um sapato, como dizia o João César Monteiro sobre certos filmes que emulavam a estética da publicidade (que por sua vez é uma distorção da estética soviética de montagem).

Espanto & Mutação. Não há uma via única, é certo. Mas basta olhar para um filme do passado para entendermos que a percepção do ritmo evolui com o tempo. A brevidade e a velocidade são hoje elementos essenciais, que no futuro serão cada mais predominantes. Um filme feito com a consciência dessa mutação na capacidade de ver imagens em movimento só pode obedecer a essa lógica. Os jovens espectadores de hoje são mutantes, cujo sistema cine-perceptivo é radicalmente diferentePICS 13 dos espectadores dos filmes dos Lumière e Méliès. No cinema (assim como na vida) é cada vez mais difícil regressar ao Estado de Espanto Original, mas é nessa espiral que a viagem deverá ocorrer (um sobe-e-desce, um vai-e-vem entre Espanto e Conhecimento, entre Espectáculo e Pesquisa: criando níveis cada vez mais complexos de espanto, sem esquecer que nada funciona sem a entrega ao outro (filme/espectador) e que isso implica uma transformação do Eu. Nada se cria, nada se vê, nada se ouve, sem transformação.

 

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